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Revista Veja, 04/04/2001
Todo ano, 4 bilhões de dólares são movimentados no mercado de arte roubada. Nas últimas duas décadas, nenhuma outra forma de comércio ilegal cresceu tanto. O volume de negócios triplicou e já é o terceiro mercado negro que mais movimenta dinheiro no mundo – atrás somente do tráfico de armas e de drogas. Essa rápida expansão aconteceu graças à própria supervalorização das obras de arte, muitas vendidas por milhões de dólares em rápidos lances em leilões. Atualmente, a Interpol tem catalogadas mais de 15.000 itens de grande importância que estão desaparecidos. A empresa inglesa The Art Loss Register, especializada na caça de objetos de arte, tem em seus arquivos mais de 120.000 desaparecidos – incluindo pequenas peças como jóias, moedas, estatuetas, selos e cerâmicas – e recebe 1.200 novos itens por mês. O Brasil, por ora, está fora do circuito. “A parcela brasileira nesse mercado ilegal é insignificante”, diz Emanoel Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Só uma pequena parte desse tesouro roubado é formada por quadros, mas são eles os responsáveis pelo glamour que envolve a arte de roubá-los. Hollywood transformou o roubo de pinturas no mais charmoso dos crimes.
| Quadro: O Concerto Autor: Vermeer Valor estimado: 100 milhões de dólares Roubado: 1990, em Boston |
Quadro: Auto-retrato de 1630 Autor: Rembrandt Valor estimado: 10 milhões de dólares Roubado: 2000, em Estocolmo |
No cinema, os requintados larápios usam uma parafernália tecnológica para invadir um museu famoso e sair com uma obra-prima debaixo do braço. A realidade é diferente. Os ladrões de arte são em geral bandidos comuns, sem sofisticação ou grande conhecimento sobre as obras que tentam surrupiar. “Na grande maioria, apesar de craques na arte de roubar uma tela, eles são péssimos na hora de negociá-la”, diz Julian Radcliffe, presidente do Art Loss Register. É justamente aí, segundo ele, que os criminosos caem nas mãos da polícia. Foi desse jeito que se desbaratou uma quadrilha que roubara o famosíssimo O Grito, de Edvard Munch, em 1994. Se sobrou habilidade para surrupiá-lo da Galeria Nacional de Oslo, na Noruega, faltou competência na hora de repassá-lo. O bando exigiu resgate e acabou preso quando tentava botar a mão no dinheiro. Muitas vezes, no entanto, o crime se aproxima da perfeição. No maior roubo de todos os tempos, dois homens saquearam o Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, há onze anos. A polícia americana jamais descobriu quem levou doze quadros avaliados em 300 milhões de dólares. Entre as obras desaparecidas estão O Concerto, de Vermeer, e Cristo na Tempestade no Mar da Galiléia, de Rembrandt, a única paisagem marinha pintada pelo artista holandês.
O FBI acredita que foi um roubo encomendado, já que é impossível alguém despejar dois quadros como esses de volta no mercado. De Vermeer, artista que viveu no século XVII, hoje só se conhecem cerca de quarenta obras, a grande maioria nas mãos de museus como o Louvre e o Metropolitan de Nova York. O valor de O Concerto é estimado em 100 milhões de dólares, se um dia fosse a leilão. Essa é uma distorção curiosa que virou regra número 1 dos bandidos: um quadro famoso não pode ser vendido sem ser reconhecido. Por isso, na hora de escolher entre um Van Gogh e uma tela de um pintor menos conhecido, o bom ladrão opta sempre pelo menos famoso, que será muito mais fácil de vender. O primeiro a descobrir essa regra foi o italiano Vincenzo Perugia. Em 1911, ele roubou nada menos que a Mona Lisa. Dois anos depois, foi preso ao tentar negociá-la.
| Divulgação/Galeria Uffizi | |
| O GRITO Roubado: 1994, na Noruega Recuperado: 1994 Valor: 65 milhões de dólares Autor: Edvard Munch |
MONA LISA Roubado: 1911, na França Recuperado: 1913 Valor: inestimável Autor: Leonardo da Vinci |
“A maioria dos roubos acontece porque um quadro pode ser transformado com facilidade em dinheiro no mercado negro”, diz Radcliffe, que faz coro com a maior parte dos especialistas que não acreditam nas histórias de mansões de multimilionários em ilhas paradisíacas com paredes cheias de telas roubadas. Na verdade, os quadros são um método perfeito de evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Um fator que ajuda os roubos é a diversidade das leis de cada país. Em muitos lugares, uma obra pode reaparecer no mercado, depois de determinado período, sem que seu antigo proprietário possa fazer nada. Na Holanda, que tem legislação branda, se um quadro ressurge depois de vinte anos, ele pode ser vendido normalmente. Assim, muitas obras demoram décadas para reaparecer. Em dezembro de 1999, uma tela de Paul Cézanne foi vendida normalmente em um leilão em Londres por 27 milhões de dólares, vinte anos após ter sido roubada de um colecionador particular.
Diante desse panorama desolador, quem mais sofre são os museus, que gastam fortunas com segurança. Para superar a era dos ultrapassados alarmes sonoros, muitos contam com dispositivos ultra-sônicos e sensores infravermelhos, que monitoram a temperatura ambiente dos salões. Nada disso adiantou quando, há três meses, bandidos armados com metralhadoras entraram no Museu Nacional de Estocolmo e levaram dois quadros de Auguste Renoir e um auto-retrato de Rembrandt, cada um estimado em 10 milhões de dólares. Longe dos roubos românticos recheados de equipamentos de última geração, a vida real parece bem menos fascinante.
| Os mais roubados (em número de peças desaparecidas)
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